CEO da Plamev, Raphael Clímaco, defende que crescimento do segmento exige menos improviso e mais processos, dados, planejamento e equipes preparadas para ganhar escala
O mercado pet brasileiro deixou há tempos de ser um segmento de nicho para se transformar em uma indústria bilionária. Em 2024, o setor movimentou R$ 75,4 bilhões no país, crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet). Para 2025, a entidade projetou faturamento de R$ 77,2 bilhões.
O avanço amplia também um desafio para quem está à frente de clínicas, hospitais veterinários e empresas ligadas ao segmento: transformar conhecimento técnico em negócios estruturados, com processos, indicadores, planejamento financeiro e capacidade de crescer sem depender exclusivamente da atuação de seus fundadores.
Para Raphael Clímaco, veterinário, empresário e CEO da Plamev, a profissionalização da gestão é uma das etapas fundamentais desse novo momento do mercado.
“O veterinário foi treinado para cuidar de vidas, não de empresas. A maioria administra no feeling. Só que o feeling sem método é sorte e sorte não escala”, afirma.
A própria trajetória de Clímaco acompanha essa mudança. Formado em Medicina Veterinária, ele deixou gradualmente a atuação clínica para se dedicar à gestão e à construção de uma operação capaz de funcionar para além de sua atuação individual.
“Percebi que meu impacto estava limitado à quantidade de consultas que cabiam na minha agenda. O ‘clic’ veio quando entendi que liderar é curar em escala. Deixar o jaleco e vestir o papel de gestor foi entender que, se eu quisesse transformar o setor, eu precisaria aprender sobre finanças, pessoas, estratégia e cultura”, conta.

Crescer no esforço ou crescer no método
Na avaliação do executivo, um dos principais riscos para negócios que começam a se expandir está justamente em manter a mesma lógica de gestão utilizada quando a operação ainda era pequena.
Controle de caixa, margem, acompanhamento de indicadores, definição de responsabilidades e processos internos passam a ganhar importância à medida que empresas aumentam seu número de clientes, funcionários e operações.
“Feeling é importante, mas sem número, sem processo e sem rotina de gestão, ele vira chute”, alerta Clímaco. “A clínica cresce no esforço, não no método. E esforço cansa. Método sustenta.”
Os números ajudam a dimensionar o tamanho desse mercado. Dentro dos R$ 75,4 bilhões movimentados pelo setor pet em 2024, os serviços veterinários responderam por R$ 7,7 bilhões, enquanto os produtos veterinários movimentaram outros R$ 7,8 bilhões, de acordo com a Abempet.
Para Clímaco, empresas que pretendem acompanhar a evolução desse mercado precisam criar estruturas que permitam ao fundador deixar de concentrar todas as decisões.
“O primeiro passo é parar de querer ser indispensável”, afirma.
Segundo ele, documentar processos, desenvolver equipes e estabelecer rotinas de acompanhamento são alguns dos caminhos para que o empresário consiga dedicar mais tempo à estratégia.
“Saia da cadeira do operador e sente na cadeira do dono. Delegar não é perder o controle, é ganhar liberdade para construir o futuro. Todo negócio precisa gerar lucro sustentável. Qualquer coisa fora disso é hobby ou instituição de caridade.”
Propósito, previsibilidade e execução
Na Plamev, Raphael aponta três pilares para sustentar o crescimento: clareza de propósito, previsibilidade do modelo de negócio e cultura de execução.
“A Plamev cresceu rápido porque tem alma e tem dados. É uma empresa que respira propósito, mas decide com números. Investidor não busca uma ideia brilhante, busca um sistema que funciona e se multiplica”, explica.
Entre os três pontos, ele considera a execução um dos maiores desafios.
“Propósito todo mundo gosta de falar, previsibilidade vem com método, mas execução exige disciplina diária. É fazer o básico bem feito, todo dia, mesmo quando não dá vontade”, afirma.
A mudança também exigiu que o veterinário desenvolvesse conhecimentos que não faziam parte de sua formação original.
“A faculdade te prepara para salvar vidas, não para pagar boletos, liderar pessoas e tomar decisões difíceis”, diz. “Cuidar da empresa é cuidar das pessoas que trabalham nela e das vidas que ela atende. Quando virei essa chave, estudar finanças, liderança e estratégia deixou de ser obrigação e virou responsabilidade.”
Com um mercado que já movimenta dezenas de bilhões de reais por ano e reúne desde pequenos negócios locais até grandes operações, a discussão sobre gestão passa a acompanhar o próprio amadurecimento do setor pet brasileiro.
Para Clímaco, crescer exige que o empresário consiga construir uma organização menos dependente de sua presença no dia a dia.
“Delegar não é perder controle, é ganhar tempo para pensar o negócio”, conclui.
(Foto: Divulgação)




